Balnear
Falemos da perfeita inutilidade das horas que se seguem a um almoço em pleno Agosto. Quando a preguiça se instala no corpo com a lentidão de um torpor obsoleto e nos amolece os membros, nos envolve a cabeça numa penumbra morna, nos devora as palavras.
Do sopro errante do vento, das árvores que respiram sem premência, de barcos que rolam pelo estaleiro com a inércia de coisas que já não precisam de chegar a lado algum, do crepitar da fogueira, das gaivotas pousadas em terra entoando o presságio da tempestade que se constrói vagarosamente ao largo.
A placidez deste lugar impõe quase por força a escolha de uma melodia correcta. As paisagens sonoras que se desenham cá dentro resistem à palavra. Talvez o canto das andorinhas seja mais capaz de as traduzir, com aquela urgência veloz e ao mesmo tempo levíssima que lhes é tão própria.
Ao lado cantam guitarras, grelha-se entremeada sobre brasas, o fogo crepita num pequeno iglo de pedra junto à areia. Estamos assim. Em voo livre num mundo desprovido da realidade que tão bem conhecemos, a aspereza, o peso do quotidiano. Lisboa permanece no confim, abraçando o Sol por detrás das serranias enquanto a espuma das ondas me envolve carinhosamente o calcanhar saudável.

