Contornos de Sul
São viajantes os dedos que se entrelaçam em celebrações ao Inverno que emoldura este Sul num monótono murmúrio. Juras retalhadas adormecidas no areal. Um futuro nos braços do pescador de algas e tormentas calçado. O farol, um livro de botânica e uma frenética dança ao pôr-do-sol.
Contam-se os segundos para que este se esconda atrás da acentuada inclinação que a memória tanto persiste em conservar em meros cristais de ausência. Reparo na frieza do mar, na ondulação teimosa, nas correntes cruzadas. Cruzamentos inevitáveis suspensos no conforto dos segredos pontiagudos trancados ao fim de tarde.
A esta altura a luz já se deixa embalar pela hipnose do sono. Vejo a dispersão das nuvens e pulsa-me ao ouvido o búzio maltratado por um líquido ardente que outrora me queimava a garganta. Ondas mansas que os pés acariciam, uma brisa que me enlaça o pescoço.
Uniões presas. Tão presas como as lapas aninhadas no espelho de outros tempos engolidos pela maré. Rebentação que de lilás se veste e uma gaivota que a casa me irá levar.
Ao virar da esquina, o gato desenha círculos na calçada, amarelo como um resto de sol perdido na lâmpada. A noite levanta o rosto, vazio de nome, e os candeeiros deixam cair a luz como um uivo que se silencia. As casas, conchas de cimento, nesse escabroso sucesso de imobilidade, são pulmões de vácuo que nos sequestram num singelo abraço de cal.
E o silêncio uiva, mas ninguém o reclama.
Dou por mim a reter a bizarria da hibernação conjunta, de relógios parados e do branco que cinza se tornou, emergindo neste tudo alimentado do nada que teimei em cumprimentar de mãos vazias. É o desejo de ficar e a ânsia de fugir. De pisar o arame e procurar o equilíbrio.
Subo pela vertente que, detalhadamente, maltratei com o meu cálculo. Sou o rasto que se tinge de sangue no meio do amarelo banal das flores, à procura de uma excepção botânica que me devolva o fôlego. Uma linária no meio de azedas. Quero o excesso da água que rompe as margens e a imobilidade de uma romãzeira que, há cem anos, faz da resistência a sua única gramática contra o vento.
Será do topo que vos aceno, num brinde à distância que nos move. Uma cigarra na sombra do menir, um vale aos meus pés que a névoa cerca contra o tempo.
Uma baixa de temperatura. O ajuste do desassossego.
A seara trémula no recorte a preto e branco onde a escuridão do azul se encaixa. O deslizar indefeso das horas pela curva da nuvem. Uma noite que estrelas me sopra enquanto o horizonte sobre a capela se debruça.
Mastigando sonhos nesta paz soberana, devolvo-vos o afago salgado, o silêncio e o ambiente inalterado.
Estou bem aqui.

