Em todas as pálidas bermas do mundo
Nas dobras de uma geada que não fere, o dia desce a encosta, líquido, entre o granito e a hera que o sustenta. Há um modo de caminhar que é apenas vento, um rasto de dedos invisíveis, ou talvez gestos, que procuram a curvatura da pedra onde dois nomes foram, outrora, o centro da casa.
Acto de permanência.
Beber a luz que muda, esse tom de cobre que se dissolve no zinco das nuvens, sem que a garganta peça o alívio da água. A sede é um conceito deixado ao acaso na planura, um objeto que se deixou cair na berma enquanto as horas, lentas e pálidas, se deitavam sobre o inelutável pó dos acessos à cidade mais próxima.
Fica o regaço, esse espaço entre o antes e o nunca, onde o tempo arrefece sem chegar a ser noite. Não há a geometria das pétalas para medir a queda, nem o peso do ferro para marcar a ausência. Apenas o declive, o reflexo que escorre pelas fendas da montanha, e este sono que se estende, horizontal, pelas margens de todas as estradas que o mundo abandonou.
Em todas as pálidas bermas do Mundo.

