Ano Zero
Um ano zero que se levanta sobre o lodo e a claridade depois de sucessivos invernos onde o chão se dissolveu sob a habitual leveza dos meus passos. Restou a suspensão, um modo de estar no mundo sem lhe conhecer as texturas inteiramente, uma forma de flutuar onde a gravidade se esqueceu de ditar as regras.
Habito diariamente o intervalo, esse território de fronteira onde a realidade palpável das pedras se cruza com a ausência de visibilidade, como se a existência terrena não passasse de um verso lido entre duas orações antes do sono.
Não há peso nas pernas. Aliás, continuam a tremer.
Há apenas o equilíbrio precário de quem aprendeu a caminhar sobre o vazio, fazendo do limbo endereço primário onde a ausência do tapete é a única forma de sentir a frescura da terra.
Do vento.
Dos mares.
Nesta margem, onde a água escreve a sua gramática polvilhada de sal, a lua, uma testemunha de recomeços generalizados e que este mês ainda não cresceu na totalidade, deita-se aqui ao lado. Observo-a, com a precisão de uma lente que opera um movimento mecânico de aproximação que a torna desmesurada a cada vez que o meu pensamento a tenta alcançar com a ponta dos dedos.
Contei-lhe que nunca existiu um esquecimento total da situação. Contei-lhe que existiu uma integração do que foi quebrado na arquitectura do que agora se constrói. Que há muito que sigo de mão dada com o passado, esse peso sombrio de pulsos frios que dá prumo às manhãs e que me ensina a segurar o coração para que ele não sangre fora do seu tempo.
(Acabaram as compressas)
Capto, pelo canto do olho, a travessia dos cacos à superfície. Os restos irregulares de uma porcelana que um dia chamámos levianamente de quotidiano, descem agora o rio em direção ao mar que tudo acolhe a oeste. São estilhaços de um desastre pessoal e privado, levados pela corrente, polidos pela paciência das marés até perderem o corte, à espera de outras mãos, mãos que irão ignorar o meu nome, recolhendo-os do areal como coleccionáveis conchas invulgares.
O meu naufrágio tornou-se o adorno de um estranho, uma forma perfeitamente completa, a matéria-prima de arestas suaves pronta para ser o centro de uma nova criação. É neste ciclo de transformações sem costuras que observo o rio que desliza juntamente com o que dói de verdade, devolvendo-o à terra com uma beleza nua.
Por isso escrevo-te.
Nenhum sol se atreveu a pôr-se sem que o meu rasto te tivesse procurado. Os dias viajaram em espiral dentro de mim e nenhum deles findou sem que eu tecesse o fio da minha voz até chegar inexplicavelmente a ti. Escrevi-te sempre, com a insistência desigual das marés, porque foste a única geografia que não exigiu a recomposição dos destroços. Porque a dispersão da matéria não é um erro e sim a forma, ainda que ligeiramente tosca, de habitares com uma serenidade mineral a fragmentação inevitável que a tua própria ausência instaurou deliberadamente.
Escrevo-te hoje para que a minha voz se perca, como tu, nessa beleza descontínua onde o que foi partido procura a liberdade de ser apenas rasto e poeira.
E em cada palavra, em cada vazio entre as letras, respondes-me sempre, abraçando-me e ditando-me o caminho com a geometria cálida para onde fujo quando a realidade por aqui neste plano físico se torna áspera e o chão parece de novo ceder: os teus olhos.
Ano zero.

