O que fica depois do frio
Não existe celebração nesta passagem pelo travo metálico da geada.
O inverno dissolveu-se como a cera quando a chama já não lhe justifica a verticalidade, deixando apenas o rasto de um corpo que foi sólido e agora escorre para a penumbra dos cantos (onde ninguém limpa).
Há uma claridade que chega de viés, oblíqua e sem vénia, funcionando como uma arqueologia súbita a expor a anatomia do que estava oculto: a parede com a infiltração mal tapada, o verdete escorrido por um comboio de depressões que se demorou no seu percurso, o galho do Ligustro partido que assim ficou desde Dezembro.
O fim da estação é uma rendição mútua entre o gelo e a pele, ambos exaustos, cedendo lentamente sem o alarde da vitória. Resta uma trégua de cinza e musgo, o odor da matéria orgânica em movimento e uma náusea suave, típica de quem emerge de um confinamento e ainda não sabe como habitar a amplitude do ar. Reparo nas árvores: os ramos mostram agora uma tensão nova, uma intenção quase imperceptível de quem procura o vocábulo exacto para romper a espera.
E as esperas tendem a ser longas…
Sinto o pulso da seiva que ainda não é verde mas que pesa significativamente, uma força a empurrar o interior da casca até ao limite do grito. O céu tem a cor do estanho polido e a luz, agora mais longa, parece o rasto de um animal que passou sem ruído e não olhou para trás.
Há uma geometria singular nas sombras, um ângulo novo que corta o pátio e revela que o tempo não passou, que foi só uma acumulação regular como o pó sobre os móveis da sala de jantar. Não é esperança num recomeçar nem é medo do que aconteceu: é a consciência da existência da fenda por onde o dia começa a entrar, estreita e gelada, como algo afiado que distingue o que fomos daquilo que ainda não consegue abarcar qualquer palavra.
O redor, por sua vez, é uma preparação muda. O bicho que acorda debaixo da pedra, o bolbo que fende a crosta da terra com uma teimosia que não precisa de se justificar, o vento que mudou de quadrante e traz agora o cheiro a maré e as raízes expostas. Um tempo de trégua onde a única certeza é a de que o chão já não nos retém e de que o corpo terá de aprender a sintaxe desta claridade nova.
Talvez esta primavera seja o momento em que aceitamos que a forma anterior se perdeu na tal poça de cera e que o que vem a seguir exige um novo alfabeto, uma nova maneira de deixar o ar entrar.

