Ferro por Cravar
Há um silêncio delicado pelo vale que me lembra a tua voz, que vejo translúcida, lá no cimo, a atravessar as nuvens como a agulha mais polida. No tremedal que circunda o charco de águas, as rãs iniciam o seu canto palúdico, um simulacro que tenta invocar o espectro da Primavera.
A melodia incomoda-me.
Elas não sabem que a Primavera que invocam permanece morta nos fios do que cresce rasteiro aqui à volta, que o seu júbilo é uma mentira que a boca repete sem o corpo ainda compreender. E eu aqui, imóvel, como o camada pastosa que as rodeia, observo esta persistência como quem faz um escrutínio exímio de um ritual que perdeu todo o seu sentido.
Inspiro uma vez. Duas vezes.
Não há peso no ar, apenas a efluência húmida da terra e o crepitar das fogueiras, um perfume que me morde a pele como a resina ardida que anuncia a transição das mãos que se dissolvem em folhas ígneas. Desprendem-se dos braços para esvoaçar no fôlego aquilinar do vento, moderado, que hoje viaja de Sul. As tábuas permanecem menosprezadas, interrompidas num canto, embebidas numa nudez espectral face ao anoitecer que, no alto do seu rigor vítreo, caminha a passos largos nesta direcção. Os pregos continuam presos à sua forma inicial. O ferro por cravar. A casa ficou por concluir. E a nossa vida também.
No declínio crepuscular, ponto de união de sonhos que fiz por calar, o meu corpo cede finalmente, entregando-se a uma letargia telúrica, a palavras arrastadas, palavras molhadas da chuva que reside no imaginário do que poderia ter sido. As águas permanecem imóveis, guardadas pelo limo, como se ainda sustentassem o peso difuso do que viveram.
À luz da película breve e âmbar que me envolve, acaricio por impulso a vegetação rasteira, como se deixasse os meus dedos brincarem com os teus cabelos. Como se me fosse possível esfumar uma penumbra de um sorriso que sempre recende à chegada fragrante de um corpo celeste cuja designação ainda escapa às mãos do mundo. Como se o seu nome tivesse sido guardado pelo próprio céu, longe da pressa humana de dar sentido a tudo.
Como o teu.

