Ócio

Se alguma vez soubesse, com absoluta certeza,

quais as fundações reais do amor,

não o amor dito e repetido até perder o sumo,

mas o que cresce sem ser plantado, o que nasce

no claustro sagrado onde não esperávamos encontrar nada,

talvez deixasse de ter esta vontade incessante de nomeá-lo

Talvez me bastasse viver aninhada dentro dele,

como se vive dentro de uma estrutura

de treliças de madeira, coberta por feltro,

que conhecemos de olhos vendados,

cada viga radial, cada raio de sol

Há essa carência de luz como cura,

de um estado do mundo impermeabilizado,

em que tudo parecia confabulado a meu favor,

o sorriso das petulantes libélulas das últimas gotas de chuva,

o dia, o silêncio, o peso exacto das coisas sobre as mãos

Quando isso passa, e passa sempre,

ficamos com a estranha sensação de ter sido ricos

e não o saber enquanto o carrossel girou.

Porque o esquecimento é ócio da memória,

a sua forma pagã de descansar.

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O que fica depois do frio